COMO CARACTERIZA A EVOLUÇÃO DO SECTOR DO CAPITAL DE RISCO EM PORTUGAL? O sector do Capital de Risco em Portugal tem, por factores de vária ordem que serão objecto de desenvolvimento ulterior, sofrido nestes últimos 2 anos, sensivelmente, mudanças de vulto, não se comparando com a sua fase inicial da segunda metade da década de 80. Assim, as Sociedades de Capital de Risco que durante mais de uma década conviveram com um palco primordial de actuação assente na macroeconomia, uma vez que o país tinha como objectivo a convergência nominal (diminuição do défice, despesa pública e inflação) com os restantes países da União Europeia, viram, neste final da década de 90 o cenário propício para o desenvolvimento das suas actividades, com a convergência nominal a dar lugar à convergência real (colocar o PIB per capita do país ao nível da média comunitária), objectivo este que, a ser logrado, passa necessariamente por uma actuação muito mais eficaz das nossas PME’s e, consequentemente, por uma Indústria de Capital de Risco nacional agilizada e altamente profissionalizada. O cenário estava, pois, criado para que o conceito do Capital de Risco até então associado a “hospital de empresas” passasse a ser o de uma verdadeira ferramenta de financiamento para projectos de elevado potencial de crescimento e de apoio às nossas startups. A par disto, houve toda uma mudança no paradigma organizacional provocado pela nova plataforma de comunicação – Internet -, associado ao padrão da Nova Economia. A “onda” que veio dos E.U.A, apesar de tardiamente, teria de funcionar em Portugal, pelo que não foi de estranhar que os nossos empreendedores, principalmente os mais informados e profissionalizados passassem a detectar, também eles, oportunidades neste novo ambiente económico. Oportunidades estas que necessitavam, face ás suas características específicas relacionadas com a ausência de bens físicos, logo inexistência de garantia para os financiadores tradicionais, de um novo sistema capaz de financiar e sustentar a actividade inovadora e a criação de novas empresas só ao dispor da industria de Capital de Risco.
Sem dúvida que estas mudanças de cenários, trouxeram profundas alterações ao sector, nomeadamente: · Diminuição da concentração dos investimentos nos operadores. Só para se ter uma ideia, em 1999 mais de 90% do investimento em Capital de Risco em Portugal foi realizado por um só operador, segundo dados da APCRI. · Entrada de novos operadores no mercado, nomeadamente as Corporate Ventures (Sonae.com ; Bes.com ; Cofina ; Novabase Capital,...) e os operadores independentes (Change Partners), que trouxeram ao mercado maior dinamismo por via do aumento da concorrência. · Aumento acentuado, que se tem verificado desde 1999, do nº de operações e dos montantes investidos. · Aumento dos projectos apresentados e analisados. · Realização de dezenas de iniciativas ( seminários e conferências, livros publicados, artigos de opinião, trabalhos realizados pela Imprensa Especializada, trabalhos académicos, entre outras) que contribuíram e muito para a Evangelização do sector de capital de risco , i.é., para a promoção da sua missão e das vantagens e competências específicas face a outros instrumentos de financiamento empresarial. Estas acções contribuíram para que o Capital de Risco passasse a ser tema de conversa do dia a dia empresarial, quando antes era algo que só fazia parte da Teoria, possibilitando, assim, a criação de um clima de optimismo junto dos empreendedores, nomeadamente os que se encontram ligados às novas tecnologias, levando-os a acreditar que também é possível ,em Portugal, a obtenção de financiamento via capital de risco. · Chegada ao mercado nacional de toda uma panóplia de conselheiros especializados em criação de empresas como são o caso dos: “caçadores de cabeças”, advogados, consultores de marketing, angariadores de capital de risco, gabinetes de relações públicas, jornalistas especializados, ou seja, a presença de um conjunto de especialistas que permitiram « industrializar » a criação de start-ups, ao fazer beneficiar entre eles de uma rede muito densa de profissionais de alto nível, e o que é mais importante , desde a sua criação. · Criação do Novo Mercado para empresas de elevado potencial de crescimento o qual permitirá, por um lado, organizar, num futuro próximo, as nossas Small Caps dotando-as de adequadas capacidades de financiamento ao seu desenvolvimento e, por outro lado, permitirá aos operadores de capital de risco possuírem um Mercado no qual poderão alienar, caso assim o entendam, as participações que, em devido tempo, efectuaram, nas citadas smalls caps, e dessa forma obterem a tão desejada liquidez para que possam investir em novos projectos empresariais. · Aparecimento de figuras, como a dos Business Angels, com um papel fundamental no financiamento dos projectos na fase “seed”. Foram pois, 2 anos de alterações marcadamente positivas, que contudo não foram suficientes para diminuir o fosso que ainda existe com outros países da União Europeia, por exemplo França e Reino Unido, onde este sector desempenha um papel decisivo no apoio à inovação e ao aparecimento de startups geradoras de riqueza.
CONSIDERA QUE ESTE SECTOR ESTÁ DEMASIADAMENTE CENTRALIZADO EM TORNO DE ALGUNS OPERADORES E DE ALGUMAS ÁREAS GEOGRÁFICAS? Segundo os dados do nosso indicador, o qual é elaborado semestralmente em parceria com a Universidade Moderna, e que consiste na divulgação dos investimentos realizados pelos operadores de Capital de Risco portugueses em cada semestre, tal afirmação não corresponde à realidade. Por um lado, e tal como o atrás referido, os empreendedores que recorreram ao mercado de capital de risco nacional dispersaram os seus projectos por vários operadores, não se podendo dizer, por isso, que existem operadores dominantes. Assim, e segundo dados do 1º Semestre de 2001, 5 operadores realizaram 77% do total do investimento, o que comparativamente a 1999 (onde mais de 90% estava concentrado num só operador) é de facto diferente e mostra que há um maior dinamismo, não existindo operadores preponderantes, tal como nos é dado a aperceber pelo “ranking” (vide gráfico abaixo) e pela comparação com o semestre anterior.
Por outro lado, e ao nível geográfico, também não é verdade que os investimentos de Capital de Risco estejam demasiado centralizados em Lisboa e no Porto. Recorrendo de novo ao nosso Indicador apercebemo-nos que das 65 operações realizadas no 1º semestre de 2001, 33 foram em Lisboa e 9 no Porto, ou seja, um pouco mais de metade das participações ficaram nos 2 grandes centros nacionais. A título de curiosidade podemos informar que em França, em igual período, praticamente 2 em cada 3 investimentos estavam concentrados em Paris ou nas suas regiões limítrofes.
QUAIS SÃO OS ESTIMULOS E OS ENTRAVES À DINAMIZAÇÃO DESTE SECTOR EM PORTUGAL? Apesar de todas estas mudanças que se deram no sector nestes últimos anos, o certo é que ainda existe muito por fazer, no sentido de se dotar Portugal de um verdadeiro Ecossistema de Capital de Risco. Um dos principais entraves tem sido, de facto, a questão fiscal, verdadeira inibidora da chegada ao nosso país de operadores estrangeiros. Assim, a total falta de visão do poder político para a necessidade de criar um enquadramento fiscal favorável à actividade de Capital de Risco (veja-se o que ocorreu em Espanha quando em 1999 o governo aprovou um enquadramento específico para a actividade de Capital de Risco – vidé figura abaixo), quer formal quer informal, situação esta tanto mais grave quanto sabemos ter sido aprovada nesse período, uma “pseudo” reforma fiscal. Com efeito, a manutenção, por um lado, de uma taxa de tributação efectiva das SCR de 32%, em sede de IRC, ao contrário do que acontece, por exemplo em Espanha onde as SCR são tributadas em 1%, e a contínua ausência de incentivos fiscais aos Investidores informais que invistam em PMEs não cotadas em bolsa, contrariamente ao que acontece em França, p.ex., contribuem para que os empreendedores portugueses continuem a não ter acesso não só ao Capital Dinheiro, mas fundamentalmente ao Capital Conhecimento resultante do “saber fazer” das redes de contactos internacionais que lhes permitam colocar os seus produtos e serviços mais facilmente nos mercados globais.
Ademais, a ausência de iniciativas profissionais que contribuam para a dinamizar o aparecimento de Jovens Empreendedores e consequentemente de mais projectos de investimento que possam beneficiar das condições que actualmente o lado da Oferta ( Incubadoras públicas e privadas, clubes de business angels, corporate ventures, Sociedades de capital de risco e até de um Novo Mercado) são factores importantes que não deixam de ser entraves a um sector que ainda tem muito para crescer no nosso país. É óbvio que a questão da mentalidade, é também um factor a ser levado em linha de conta, já que o Capital de Risco é acima de tudo parceria, e nós sabemos que, por razões culturais de várias décadas, conceitos como parceria e associativismo, nunca foram muito aceites no nosso país do “orgulhosamente sós”. No entanto, a sociedade em que
vivemos está diferente, e os jovens empreendedores de hoje compreendem
isso (porque se vive de facto numa economia em rede), sendo alguns mesmo líderes
de negócios de âmbito global. Os jovens universitários, com quem
falamos, demonstram ser cidadãos do mundo na forma e na atitude como
encaram as mudanças, nomeadamente as que estão a acontecer a nível
global. - Da criação de redes regionais de business angels, que actuem localmente e que facultem o chamado “seed capital”; - Do desenvolvimento das ligações do “capital-capital” com o “capital conhecimento” que vem das universidades, centros de investigação, centros de incubação, etc..; - Da promoção e divulgação, através de road shows, deste modo de financiamento a nível regional, o que seria uma forma de acabar com muitos mal-entendidos que ainda vão existindo nalgumas pessoas, e de transmitir as verdadeiras potencialidades do Capital de Risco, como forma de potenciar e catapultar negócios, ideias e novos projectos; - Do Benchmark junto de países como os E.U.A, França e Reino Unido de modo a que se conheça de uma forma aprofundada o que é a verdadeira indústria do Capital de Risco, carreando para Portugal formas e métodos altamente inovadores reflexo de uma longa experiência acumulada. Só assim, poderemos contribuir para o desenvolvimento sustentado deste sector, vital ao rejuvenescimento do nosso tecido empresarial e à verdadeira criação de riqueza. Neste âmbito o III QCA, contempla medidas que vão de encontro a algumas das nossas preocupações nomeadamente se atentarmos no que está programado tanto na medida 2.2 – Mobilizar novas ideias e novos empresários, como na medida 3.4 – Consolidar e alargar as formas de financiamento (da qual saiu alguma legislação no passado dia 10/1 – Portaria 37/2002), contudo, ainda pouco se conhece de concreto a este nível, pois a matéria legislada é escassa. A criação, como tem vindo a ser anunciada, de uma holding estatal de base tecnológica para o Capital de Risco que agrupe todos os centros tecnológicos actualmente dispersos pelos diversos Institutos que se encontram sob a alçada do Ministério da Economia, e, as medidas específicas constantes do POE direccionadas para as SCR (Fundo de Sindicação e Desconto de Participações), podem revelar-se insuficientes se não se descentralizar e apoiar a iniciativa privada na dinamização de um conjunto de acções “âncoras” atrás supra referidas, as quais, dado o seu carácter fortemente mobilizador e empreendedor, dificilmente poderão ser materializadas por estruturas públicas de débil flexibilidade e altamente burocratizadas.
NO ACTUAL CONTEXTO ECONÓMICO, OS PROJECTOS ONLINE PORTUGUESES SÃO RENTÁVEIS? Apesar da actual conjuntura internacional ser extremamente negativa nomeadamente ao nível dos indicadores de confiança dos consumidores, com reflexos no comportamento dos mercados bolsistas e dos investidores em geral, sou da opinião de que a citada conjuntura não colocará em causa a vaga de Inovação que tem permitido à nossa sociedade um dos mais impressionantes períodos de progresso tecnológico que o mundo já assistiu.
O QUE DITA O SUCESSO DOS PROJECTOS ONLINE? O que dita o sucesso dos projectos online, é o que dita o sucesso de qualquer projecto, e que nós na Gesventure designamos de 4 M’s: Market – tem de haver uma clara oportunidade de mercado. O nicho em que se vai actuar tem de estar bem definido; Management – tem de existir uma equipa de gestão qualificada e multifacetada; Money – o modelo de negócios tem de ser viável, ou seja, garantir um ROI elevado; Magic – tem de haver ambição, o sonho tem de estar presente, de forma a que se possa perspectivar o futuro. Ou seja, independentemente do sector em que se inserem os empreendedores terão de ter presente que o mais importante de tudo no seu projecto são eles próprios. São os seus conhecimentos académicos, do negócio e dos potenciais clientes, a sua experiência acumulada e a sua vontade e dedicação que ditarão o sucesso ou insucesso do que pretendem lançar/criar. Por isso, defendemos claramente que uma ideia de pouco vale se não tiver por detrás uma forte equipa que a implemente e que depois faça dela um negócio viável. Não é por acaso que vivemos na chamada “era do conhecimento” que sucedeu à “era da informação”, ou seja, nos dias de hoje só terão sucesso aqueles que melhor lidarem e “digerirem” essa informação e conseguirem inovar. É pois no “brain” de cada um de nós que está o futuro e o sucesso ou insucesso dos projectos empresariais.
QUAL É A IMPORTÂNCIA DO B2B EM PORTUGAL? Presentemente, em Portugal, estamos numa fase embrionária na utilização da Internet para desenvolver as relações entre fornecedores e clientes. A Internet tem sido utilizada mais para divulgação de produtos e de empresas e menos como uma forma de colaboração e interacção. Todavia, Portugal não ficou
imune a esta explosão do
e-business que está a fomentar uma nova economia digital. Para os
fornecedores, a Internet tem permitido em todo o mundo uma nova forma de
alcançar os clientes, e em Portugal passa-se o mesmo. As empresas mais
atentas já incluíram o e-business nos seus processos de negócios e na
sua cultura ou estão a tentar fazê-lo. De facto, são inquestionáveis as vantagens decorrentes desta forma de celebrar negócios via Internet, pois além de ilimitada permite realizar em segundos tarefas que necessitavam de horas ou dias para ser feitas. É certo que nenhum outro veículo cria o valor, oportunidade e mecanismos disponibilizados pelo B2B. E da forma como conhecemos o mundo, não haverá provavelmente maneira mais rápida de estabelecer relacionamentos empresariais nos próximos anos. Em estudo realizado pela Booz Allen Hamilton, os principais benefícios que as empresas esperam receber da sua participação em mercados virtuais estão relacionados com a melhoria da rentabilidade (70%), e com a adopção de processos standartizados (57%) o que deixa desde já entender o grande potencial que existe neste sector.
Deste modo, é claro que os
projectos B2B são interessantes do ponto de vista das empresas de capital
de risco, que apenas têm que seleccionar as empresas merecedoras do seu
investimento, e neste caso aplicam-se as regras essenciais a todos os
projectos: a equipa de gestão tem que ser competente, o mercado deve ser
vasto, a empresa deve provar que é capaz de gerar lucros, e tem que
existir uma vantagem distintiva relativamente à concorrência que
possibilite a criação de barreiras à entrada. Para um fornecedor, é mais difícil a passagem gradual para
as transacções electrónicas pois passam a ter que processar as suas
encomendas de duas formas. Ora, como muitos dos clientes não estão
preparados para começar a fazer as suas compras através da Internet, os
fornecedores têm assim uma razão para não incluírem o e-business nos
seus processos de negócio. Isto, aliás, ocorre e ocorreu em todo o
mundo; apenas as empresas visionárias se estão a comprometer com o negócio
electrónico, mas nos EUA por exemplo, muitas empresas já o fizeram
porque as maiores empresas do sector o fizeram. Refira-se que, a Jupiter Communications prevê que o comércio electrónico B2B no mundo todo valha 2.2 bilhões de dólares em 2004 e a Goldman Sachs prevê que o valor em 2003 seja de 1.4 bilhões de dólares, quando o valor em 2000 andou à volta dos 210 mil milhões de dólares. E, embora em 2000, cerca de metade do comércio electrónico entre empresas tenha sido realizado nos EUA, espera-se que em 2004 apenas um terço desse comércio seja feito nessa região. O crescimento deste sector vai durar muito tempo e, com base no que já vimos até hoje, não se espera que estabilize nos próximos dez anos. Cada vez mais e mais empresas irão utilizar esta forma de comprar e vender os seus produtos. Trata-se apenas de escolher a melhor altura de entrar neste sector e qual a melhor ferramenta a utilizar, i.e., qual o fornecedor de soluções de e-procurement a escolher. Assim é claro que, ao nível do sector de Capital de Risco português,
seja de todo aconselhável a um investidor, incluir empresas da Internet
no seu portfolio e ter uma participação num mercado electrónico B2B. AS PROJECÇÕES PARA 2002 PARA O CAPITAL DE RISCO SÃO ANIMADORAS? A nível internacional tudo aponta para que o ano 2002 seja de facto melhor que o ano “horribilis” que foi 2001. A confiança vai por certo voltar aos mercados e os investidores vão estar atentos e apostar nas oportunidades que surjam, nomeadamente ao nível das Novas Tecnologias. Em Portugal espera-se que as medidas inseridas no âmbito do POE e que a mudança de executivo tragam de facto boas notícias a um sector que não lhe falta dinheiro, mas sim “bons projectos”, logo, onde é urgente implementar medidas que dinamizam a capacidade empreendedora, mas que ao mesmo tempo consciencialize do que é, para que serve e quais as vantagens associadas ao Capital de Risco. Pelo que nos é dado, por algumas notícias que têm vindo a público, advinham-se para breve alterações na gestão e na estrutura organizativa dos fundos públicos de Capital de Risco. Oxalá, estas alterações venham a trazer uma maior dinâmica e eficiência ao sector, que muitas das vezes é criticado por ser lento nas respostas e tomada de decisão, pouco dinâmico na busca de oportunidades, algo conservador e pouco flexível na negociação. Espera-se pois que 2002 seja o ano da evolução sustentada, uma evolução não só quantitativa (nº de operações e montantes investidos) mas também qualitativa. O ano em que se solidifiquem as bases para que nos anos vindouros possamos ter cada vez mais casos de sucesso financiados por Capital de Risco. QUESTÕES COLOCADAS PELO EDITOR DA ÀREA DE INTERNET DO JORNAL EURONOTÍCIAS, Dr Pedro Nunes, Ao Dr Francisco Banha – Director Geral da Gesventure, Lda
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