Carlos Reis
Responsável da Comissão Nacional para as Comemorações do Centenário de Eça de Queirós



Sobre Eça de Queirós

 

Este ano celebra-se muito especialmente o centenário da morte de Eça de Queirós e, como responsável da Comissão que comemora essa efeméride, comentou que «melhor do que ninguém, Eça teve a noção – e, com ela, a legítima ambição – de fazer da literatura e da arte que ela sublima, a superação da morte». A mensagem que pretende transmitir é que o nome de Eça prevalece sobre os tempos e a morte?

Sim. Os grandes artistas têm a noção disso, e penso que eles são grandes artistas, grandes escritores, grandes pintores, grandes compositores, em grande parte para isso. No fundo é para ficar, deles, alguma coisa depois da morte. Eça foi um artista obcecado em ser artista, foi um escritor obcecado em ser um grande escritor, porque ele sabia que a vida de todos nós é contingente, precária e limitada, mas que a grande arte, quando existe permanece porque tem sempre coisas novas a dizer a quem vem depois dela.

Lendo o Eça temos a noção de actualidade, de quotidiano. Como é possível estarmos a ler “O primo Basílio” e visualizar uma história perfeitamente corriqueira?

Mudando os fatos das pessoas para os de hoje em dia, a história é presente, sem, necessariamente, mudar a linguagem. A língua literária do Eça é, ainda, uma língua literária moderna. De facto, ele é que posicionou a língua que nós falamos. Ele e o Garrett, portanto lê-se um texto de Eça de Queirós com algum agrado, sem grande esforço, porque a linguagem que ele utiliza não é uma linguagem envelhecida. A forma como Eça conta o que conta envolve sempre uma componente de graça, às vezes de comicidade, da capacidade para ver o lado mais “risível” das coisas. O Eça criou tipos, que para além de tipos sociais são, também, tipos humanos. Ele soube apanhar muito bem não apenas os tiques e os tipos da sociedade do século XIX, mas os tiques e tipos humanos em geral, aquilo que transcende a época. Para além disso, o Eça antecipou questões, que são hoje de uma actualidade extraordinária. Por exemplo, “As Cidades e as Serras” relido hoje, é um romance que mostra que ele tinha a noção que o desenvolvimento científico e técnico era alguma coisa de fascinante mas preocupante, sobre certos pontos de vista, e que o sujeito humano corria o risco de ficar aprisionado pelas máquinas. Teve a noção, também, de que a democratização da vida social era uma realidade irreversível, mas que provocava fenómenos de igualização excessiva, de banalização excessiva dos costumes.

Como é comemorar Eça de Queirós?

Eu tenho dito que comemorar Eça de Queirós é fácil, porque ele é um autor ainda lido, presente no nosso imaginário. É importante mantê-lo vivo e activo, chamando a atenção para a possibilidade de renovarmos Eça de Queirós, para as novas gerações, sob o símbolo de novas linguagens. O site disponível na Internet é uma manifestação desse tipo, assim como um CD-ROM, preparado por mim e publicado pela Portoeditora. Uma adaptação que a TV Globo está a fazer dos “Maias”, em mais de quarenta episódios é outro exemplo. A comemoração de Eça é, também, um pretexto para o revermos à luz de outros instrumentos, outras máquinas e de outras linguagens.

E essas novas formas de conhecer Eça não irá substituir a leitura do livro e da obra íntegra?

Não penso que substitua a leitura, pode é ser um bom veículo de acesso ou de desafio para a leitura. Nós sabemos que, hoje em dia, e isso não choca ninguém, muitas pessoas vão ler um livro porque, antes, assistiram à adptação da obra para televisão ou cinema. Aqui o que interessa são fins e não os meios, e se o fim faz com que a pessoa leia o livro ou se identifique, de alguma forma, com aquele imaginário, então é um ganho.

Acredita que se aprende Eça de Queirós e as obras nas salas de aula ou são os alunos, movidos pela curiosidade, que procuram e pesquisam?

Esse é um problema que se aplica em toda a literatura e a todo o escritor. Em quase 25 anos de professor, muito rapidamente me apercebi que, em literatura, há coisas que se podem ensinar, mas há outras que nunca se poderão ensinar. O professor pode ensinar a um estudante que, num romance, há personagens e que os personagens se movem em cenários; que um soneto tem catorze versos e que esses versos tem uma determinada economia de onde se podem tirar certos efeitos estéticos; pode explicar que existem cumplicidades entre o liberalismo e o romantismo e dizer porquê; enfim, pode abrir o caminho, mas o ponto de chegada, à fruição estética da obra, do texto em si mesmo, é uma descoberta própria. Eventualmente ajudada mas que não se ensina.

Cláudia Rodrigues
Redacção do TerraNatal