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Sobre Eça de Queirós
Este ano celebra-se muito
especialmente o centenário da morte de Eça de Queirós e, como
responsável da Comissão que comemora essa efeméride, comentou que
«melhor do que ninguém, Eça teve a noção e, com ela, a legítima
ambição de fazer da literatura e da arte que ela sublima, a
superação da morte». A mensagem que pretende transmitir é que o
nome de Eça prevalece sobre os tempos e a morte?
Sim. Os grandes artistas têm a noção disso, e penso que eles são
grandes artistas, grandes escritores, grandes pintores, grandes
compositores, em grande parte para isso. No fundo é para ficar,
deles, alguma coisa depois da morte. Eça foi um artista obcecado em
ser artista, foi um escritor obcecado em ser um grande escritor,
porque ele sabia que a vida de todos nós é contingente, precária
e limitada, mas que a grande arte, quando existe permanece porque
tem sempre coisas novas a dizer a quem vem depois dela.
Lendo o Eça temos a noção de actualidade, de quotidiano. Como
é possível estarmos a ler O primo Basílio e visualizar uma
história perfeitamente corriqueira?
Mudando os fatos das pessoas para os de hoje em dia, a história é
presente, sem, necessariamente, mudar a linguagem. A língua literária
do Eça é, ainda, uma língua literária moderna. De facto, ele é
que posicionou a língua que nós falamos. Ele e o Garrett, portanto
lê-se um texto de Eça de Queirós com algum agrado, sem grande
esforço, porque a linguagem que ele utiliza não é uma linguagem
envelhecida. A forma como Eça conta o que conta envolve sempre uma
componente de graça, às vezes de comicidade, da capacidade para
ver o lado mais risível das coisas. O Eça criou tipos, que
para além de tipos sociais são, também, tipos humanos. Ele soube
apanhar muito bem não apenas os tiques e os tipos da sociedade do século
XIX, mas os tiques e tipos humanos em geral, aquilo que transcende a
época. Para além disso, o Eça antecipou questões, que são hoje
de uma actualidade extraordinária. Por exemplo, As Cidades e as
Serras relido hoje, é um romance que mostra que ele tinha a noção
que o desenvolvimento científico e técnico era alguma coisa de
fascinante mas preocupante, sobre certos pontos de vista, e que o
sujeito humano corria o risco de ficar aprisionado pelas máquinas.
Teve a noção, também, de que a democratização da vida social
era uma realidade irreversível, mas que provocava fenómenos de
igualização excessiva, de banalização excessiva dos costumes.
Como é comemorar Eça de Queirós?
Eu tenho dito que comemorar Eça de Queirós é fácil, porque ele
é um autor ainda lido, presente no nosso imaginário. É importante
mantê-lo vivo e activo, chamando a atenção para a possibilidade
de renovarmos Eça de Queirós, para as novas gerações, sob o símbolo
de novas linguagens. O site disponível na Internet é uma manifestação
desse tipo, assim como um CD-ROM, preparado por mim e publicado pela
Portoeditora. Uma adaptação que a TV Globo está a fazer dos
Maias, em mais de quarenta episódios é outro exemplo. A
comemoração de Eça é, também, um pretexto para o revermos à
luz de outros instrumentos, outras máquinas e de outras linguagens.
E essas novas formas de conhecer Eça não irá substituir a
leitura do livro e da obra íntegra?
Não penso que substitua a leitura, pode é ser um bom veículo de
acesso ou de desafio para a leitura. Nós sabemos que, hoje em dia,
e isso não choca ninguém, muitas pessoas vão ler um livro porque,
antes, assistiram à adptação da obra para televisão ou cinema.
Aqui o que interessa são fins e não os meios, e se o fim faz com
que a pessoa leia o livro ou se identifique, de alguma forma, com
aquele imaginário, então é um ganho.
Acredita que se aprende Eça de Queirós e as obras nas salas de
aula ou são os alunos, movidos pela curiosidade, que procuram e
pesquisam?
Esse é um problema que se aplica em toda a literatura e a todo o
escritor. Em quase 25 anos de professor, muito rapidamente me
apercebi que, em literatura, há coisas que se podem ensinar, mas há
outras que nunca se poderão ensinar. O professor pode ensinar a um
estudante que, num romance, há personagens e que os personagens se
movem em cenários; que um soneto tem catorze versos e que esses
versos tem uma determinada economia de onde se podem tirar certos
efeitos estéticos; pode explicar que existem cumplicidades entre o
liberalismo e o romantismo e dizer porquê; enfim, pode abrir o
caminho, mas o ponto de chegada, à fruição estética da obra, do
texto em si mesmo, é uma descoberta própria. Eventualmente ajudada
mas que não se ensina.
Cláudia
Rodrigues
Redacção do TerraNatal

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