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A opinião de F. Banha |
1.
Há dois anos, o capital de risco era praticamente ignorado em Portugal ou tido
como sinónimo de hospital de empresas. Hoje, o interesse pelo tema é evidente.
Que
factores contribuíram para essa mudança?
Na
minha opinião existem três factores que explicam essa mudança, a saber:
Em
primeiro lugar a obtenção em Portugal de uma estabilidade macro-económica
baseada em baixas taxas de juro, na confiança dos mercados e dos agentes económicos
que potencia por si só a criação de um ambiente favorável ao investimento e
ao emprego.
De
seguida as recentes riquezas criadas por empresas Americanas, Inglesas e
Francesas, especialmente baseadas na Internet tiveram um efeito demonstração
no mercado Português bastante importante conforme se pode verificar pelo êxito
obtido pela PT Multimédia e Pararede, na sua entrada na Bolsa de Valores de
Lisboa, junto dos investidores institucionais e do cidadão comum por acções
de empresas de novas tecnologias.
Em
terceiro lugar assistimos nestes dois últimos anos ou mais concretamente
partir de Junho de 1998 - altura em que se realizou em Portugal o
importante encontro anual da EVCA - Associação Europeia de Capital de Risco,
sobre o qual nem uma linha se escreveu na imprensa quer fosse ou não
especializada - a um processo de evangelização,
explicação e sensibilização do capital de risco como sendo a
grande fonte de financiamento da Nova Economia.
Escreveram-se artigos de opinião, lançaram-se
livros sobre o tema, fizeram-se conferências, editaram-se revistas
especializadas, constitui-se a primeira Venture Catalyst portuguesa e o primeiro
Clube Português de Business Angels e mais recentemente a iniciativa do First
Tuesday que contribuíram para levar ao conhecimento do público em geral e dos
empreendedores em particular as características desta forma de financiamento.
Ou seja, o que se sucedeu foi que o capital de risco passou a ser tema de
conversa do dia-a-dia empresarial, quando antes era algo que só fazia parte da
teoria possibilitando a criação de um clima de optimismo junto dos
empreendedores Portugueses, nomeadamente os que se encontram ligados às novas
tecnologias, levando a acreditar que também é possível em Portugal a obtenção
de financiamento via capital de risco.
Modéstia
à parte, considero que a minha intervenção - livros, artigos de opinião,
conferências, Clube de Business Angels - bem como a Ideias & Negócios -
cultura do Despeça-se já, empreendedorismo, conferências - muito
contribuíram para que hoje, em dia, o tema capital de risco seja de interesse
geral.
2.
Os Business Angels permitem diminuir o gap entre quem tem dinheiro e quem
tem ideias. Tendem a entrar no capital de empresas ainda na sua fase inicial.
Por
outro lado, as sociedades de capital de risco que apostam na chamada Nova
Economia estão a mudar: investem cada vez mais cedo, ou seja, na fase early
stage e alguma, lá fora, vão ao ponto de criar ou financiar incubadoras e a
intervir nas participadas de forma cada vez mais operacional. Estarão estas
sociedades a assumir cada vez mais o papel anteriormente reservado aos BA?
Antes de mais convém relembrar que os
Business Angels e as Sociedades de Capital de Risco são dois elos importantes
de cadeia de financiamento das startups, (não só de base de tecnológica mas
também de todas as empresas que relevem forte potencial de crescimento), que se
inicia com o capital do próprio empreendedor e que termina na alienação do
capital em Bolsa.
Significa
isto que os Business Angels (investidores privados que foram também eles
empreendedores com sucesso num determinado negócio), actuam preferencialmente
em projectos de Seed Capital - ao nível
da comprovação da viabilidade do conceito do negócio, isto é, ao nível do
financiamento do desenvolvimento de um protótipo, da validação de uma teoria
ou de uma pesquisa de mercado, que permita testar a aceitação de um produto ou
serviço. Por sua vez as SCR institucionais aparecem numa segunda fase
permitindo aos empreendedores os capitais necessários (significativamente
superiores aos dos Business Angels), ao desenvolvimento do produto e à sua
comercialização.
Assim,
os Business Angels levam aos empreendedores não só Capital dinheiro mas
fundamentalmente Capital Conhecimento e conselhos de alto valor acrescentado,
numa fase de alto risco do negócio onde dificilmente os investidores
institucionais poderão criar algum
valor para não falar mesmo do rácio custo/benefício a que as SCR se encontram
sujeitas face aos baixos valores envolvidos.
Acresce
ainda que a este nível, de investimento o dinheiro a aplicar não representa a
única chave do sucesso uma vez que o empreendedor não procura um
Mealheiro mas sim excelentes conselhos estratégicos e operacionais
proporcionados pelo contacto humano que um Business Angels pode transmitir.
Por
último convém referir que o facto das SCR estarem a investir cada vez mais
cedo se deve única e simplesmente ao facto de estas terem cada vez mais fundos
disponíveis.
Uma
vez que as SCR terão de remunerar esses fundos e as oportunidades para investir
não existem em número suficiente, vêm-se na necessidade de investir em
empresas com modelos de negócios que ainda não estão comprovados e como tal
geradores de grandes expectativas como é o caso dos negócios ligados à
Internet.
Pode
ser que, com o rebentamento da bolha da Internet as SCR ponderem melhor os seus
investimentos e não se aventurem no território dos Business Angels onde para
além dos recursos tempo e dinheiro é necessário uma presença muito forte do
investidor.
E
embora existam SCR que conseguem proporcionar essa presença forte, são apenas
a excepção que confirma a regra.
3.
Que balanço faz da experiência concreta de venture catalyst da
Gesventure? (Quantos acordos, perspectivas, fundos levantados, etc.)
Quando
iniciámos a nossa parceria estratégica com a principal empresa francesa de
angariação de capital de risco - Chausson Finance
- em Junho de 1999 sabíamos que tínhamos um caminho difícil pela frente pois
a indústria de capital de risco em Portugal encontrava-se moribunda.
No
entanto, hoje em dia, e é o nosso sócio Christophe Chausson quem o diz,
encontramo-nos bastante satisfeitos pois para além de termos analisado mais de
30 projectos, participado em inúmeras sessões de divulgação, realizado um
primeiro encontro do Clube de Business Angels Gesventure, possuímos quatro
projectos com boas perspectivas de angariação de capital de risco que se
encontram numa fase de apreciação e estudo junto de duas SCR e de um conjunto
de Business Angels.
Encontramo-nos,
igualmente, a acompanhar uma empresa que é, inclusivamente, participada por uma
SCR portuguesa na selecção de uma Corporate Venturing francesa que lhe possa
trazer valor acrescentado ao nível de mercado internacional o que diz bem da
aceitação e credibilidade dos nossos serviços.
Para
além deste trabalho de selecção de investidores temos sido contactados por
empreendedores com elevado potencial que possuem ideias bastante interessantes
na área da Internet, o que nos levou a iniciar a actividade de Incubadora.
Neste
momento resultante dessa actividade, já se encontra on-line o portal terranatal.com,
encontrando-se em fase de conclusão mais dois projectos: um ligado ao sector de
transportes e outro ligado `Agronomia.
Acreditamos assim que iremos conseguir
concretizar até ao final do ano cerca de 4 operações de angariação de
capital de risco até porque estamos actualmente a receber cerca de três novos
projectos por semana e quando começamos há um ano atrás apenas recebíamos um
a dois projectos por mês o que diz bem da diferença existente em apenas um ano
de actividade.
4. Em Portugal, começa a haver mais
capital que empreendedores. Que conselhos daria a um empreendedor que dispõe
hoje de diferentes alternativas de financiamento?
A
recente queda das cotações das acções, de empresas tecnológicas, pôs toda
a gente alerta e hoje em dia já não basta ter um .com
para chamar atenção aos investidores. Aconselhamos muito cuidado na elaboração
do business plan. É com ele que se
estabelece o contacto com os investidores de capital de risco, e um plano de negócios
onde faltem elementos essenciais para a decisão do investidor não passará
duma primeira olhadela quando chega pelo correio. Um plano de negócios que
tenha tudo o que os livros dizem e além disso, conte uma bela história,
será o primeiro passo para conseguir uma reunião com as SCR. Claro que é
necessário ter conteúdo para meter no plano de negócios: uma grande
ambição, uma grande ideia, uma grande equipa e um grande mercado.
Apesar
do muito dinheiro que existe o empreendedor não deve acreditar que a galinha
dos ovos de ouro chegou.
O
mercado está cada vez mais profissional e se antes havia pouco dinheiro por
outro lado havia poucos projectos.
Hoje
existem fundos importantes, mas os projectos multiplicam-se. É um círculo
virtuoso que evolui pouco.
Relembro,
inclusivamente, que as SCR apenas conservam 1% do elevado número de dossiers
que recebem e raramente passam mais de 5 minutos com cada um deles numa primeira
leitura.
Mais
vale fazer uma apresentação sintética, de preferência sob forma de uma
projecção de vinte slides, e evitar
entrar em detalhes pois o objectivo é mostrar aos investidores que o seu
projecto será um êxito.
Um
jovem empreendedor terá todo o interesse em se apoiar em profissionais, antes
de partir à conquista dos investidores. Estes profissionais terão a sua
remuneração paga pelo sucess fee da operação mas permitirão evitar
obstáculos quer na elaboração do business plan quer na preparação e selecção
do encontro com os investidores.
5. Tem publicado trabalhos que
demonstram que Portugal tem um sistema fiscal pouco atractivo para o Capital de
Risco. Que iniciativas deveria o Governo tomar para tornar a actividade mais
atractiva? Que país considera modelar a este nível?
Efectivamente
os estudos que tenho realizado permitem-me afirmar sem qualquer dúvida que o
actual regime fiscal a que as SCR se encontram sujeitas é um dos principais
entraves à dinamização do capital de risco em Portugal.
Assim
enquanto que as SCR se encontram sujeitas a uma taxa de IRC de 35,4% (32% de IRC
+ 10% Derrama) quando alienam as suas participações as Sociedades Gestoras de
Participações Sociais (SGPS) não têm qualquer tributação, desde que
reinvistam o resultado obtido nessa alienação.
Por
sua vez em Espanha as SCR apenas se encontram sujeitas a uma tributação de 1%
sobre as mais valias obtidas.
Não
sendo assim de admirar que em Portugal não existam SCR com capitais
estrangeiros (as que existem actuam como SGPS) ao passo que em Espanha cerca de
60% do capital investido é oriundo de outros países europeus e mesmo dos EUA,
com todos os benefícios lógicos daí decorrentes.
Importa,
igualmente, referir que em França existem benefícios fiscais aos investidores
privados (Business Angels) que invistam em empresas não cotadas na Bolsa e que
em Portugal não se verifica qualquer tipo de incentivo.
Face
a este cenário eu ficaria muito satisfeito se o Governo alterasse urgentemente
a tributação das SCR proporcionando-lhe um regime fiscal idêntico ao das SGPS
ou então às suas congéneres espanholas.
Recomendava,
ainda nesta fase, deixando para outra altura outro tipo de medidas dinamizadoras
deste sector, que o governo tornasse extensivo aos pequenos investidores que
invistam em empresas não cotadas o disposto no art.º 21-A do Estatuto dos
Benefícios Fiscais, relativamente aos Fundos de Poupança Acções.
Para
além da questão fiscal recomendava, igualmente, ao Governo que optimizasse o
funcionamento entre os diversos Organismos, que se encontram debaixo da sua
orientação, de forma a evitar situações reais em que por exemplo o Organismo
A que decidiu considerar um dado projecto de elevado potencial e como tal apoiá-lo
financeiramente nas fases de estudos e registos de patentes e por outro lado um
Organismo B, que até depende do Organismo A, não decide considerar relevante o
mesmo projecto e consequentemente não o apoia financeiramente através do
capital de risco.
No
que diz respeito à segunda parte da questão posso informar que na generalidade
dos países europeus e mesmo nos EUA existem benefícios para os investidores
que actuam no sector capital de risco e que a própria Comissão Europeia deu
orientações aos países membros muito recentemente para que criassem condições
fiscais favoráveis à indústria de capital de risco.
6. Como perspectiva a evolução do
mercado neste ano (2000)?
Antes
de mais convém referir que o processo da Evangelização em Portugal
ainda não se encontra completo e como tal existe necessidade de se continuar a
sensibilizar e explicar a nível nacional as vantagens que se encontram
associadas a esta poderosa ferramenta de desenvolvimento empresarial e
posteriormente apresentar-se alguns exemplos espectaculares de sucessos de
investimento realizados por Business Angels e pelas próprias SCR, como efeito
demonstração.
Acredito
que a comunicação social, a realização de seminários com a presença de
empreendedores - e não só com a presença de técnicos de gabinete com todo o
respeito que tenho por estes profissionais - com provas dadas, a realização de
concursos nacionais de Planos de Negócios e outras iniciativas similares, tem
um papel importante a desempenhar para difundir em larga escala a informação
sobre os benefícios que pode trazer o investimento nas empresas jovens
nomeadamente as startups Internet uma
vez que são estas startups que estão na linha da frente das alterações
fundamentais (e, portanto, das oportunidades) que vão levar à passagem da
economia tradicional para a Nova Economia.
Só
assim é possível criar um Ecossistema, constituído por investidores,
advogados, consultores, caçadores de cabeças, engenheiros, banco de
investimento, jornalistas e gestores, que se auto alimente a si próprio e não
através de subsídios ou outro tipo de apoio.
Ecossistema
este que irá permitir que a exemplo do que acontece em Sillicom Valey ou agora
em França, os jovens empreendedores em vez de ambicionarem subir os degraus do
escritório da Portugal Telecom passem a ambicionar criar a sua própria empresa
e terem acesso a um pedaço do Bolo que a Internet permite.
Por
último não gostaria de deixar de manifestar a minha grande satisfação pelas
notícias recentes, que têm sido publicadas pelos responsáveis governamentais,
sobre a existência do Novo Mercado, para cotação de empresas jovens com
elevado potencial de crescimento, nos próximos meses, pois tal irá permitir
que a exemplo do que acontece nos EUA, Reino Unido e França, o mercado Português
venha tendo a pouco e pouco uma fileira completa de investidores.
Com esta fileira constituída, um quadro regulamentar fiscal mais favorável e uma conjuntura macro-económica estável existem motivos mais que suficientes para afirmar que o capital de risco irá ter a partir deste ano uma grande evolução independentemente dos 45 milhões de contos que o governo anunciou recentemente para incentivar o desenvolvimento do capital de risco.