Entrevista de Dr. Banha à revista "Valor"

1.Qual o objectivo da criação do Indicador Gesventure/Univ.Moderna?

À semelhança dos nossos congéneres europeus, nomeadamente a Chausson Finance  em França, a Gesventure e a Universidade Moderna decidiram criar o seu Indicador com o objectivo de representar de forma consistente e detalhada a actividade desenvolvida , semestralmente, pelos operadores nacionais de capital de risco proporcionando um conjunto de estatísticas ( principais operadores ,sectores alvo de investimento, localização geográfica ,estádios de desenvolvimento dos projectos, montantes médios de participação, etc..) ao tecido empresarial, político e académico que lhes permita tirar conclusões não só do que se passou mas fundamentalmente na identificação de tendências e sabendo se estas são ou não sustentáveis.

Este Indicador é tanto mais importante quanto sabemos que  vivemos num País em que a Transparência da Informação Financeira ainda é vista como uma ameaça, conforme o recordou recentemente o Dr José Pena  da PricewhaterhouseCoopers, o que não proporciona muitas vezes ( e nós próprios tivemos respostas negativas por parte inclusivamente de responsáveis de um Fundo de Capital de Risco Publico com base em argumentos que deixam muito a desejar!!!) grande disponibilidade para que os gestores dessas Entidades dêem informações sobre o seu desempenho pois tal facto poderá colocá-los numa posição de desvantagem relativamente ao seu concorrente que não é transparente.

Felizmente que os responsáveis , a quem publicamente muito agradeço, das principais operadores de capital de risco nacionais acederam ao nosso convite permitindo dar a conhecer ao Mercado o resultado das suas actividades contribuindo para a profissionalização de um sector de actividade que na minha opinião é fundamental para a Economia portuguesa.

 

  1.  Quais os factos mais marcantes em 2000 para o sector de Capital de Risco?

O ano de 2000 para o Capital de Risco, em Portugal, foi marcado por quatro factos positivos e por dois negativos.

Assim como factos positivos temos:

-         A entrada de novos operadores nomeadamente por via das Corporate Ventures ( ex:   Novabase Capital, Sonae.com .Bes.com, Media Capital, etc..) e de operadores independentes ( ex: Change Partners) que com os seus investimentos em empresas de novas tecnologias e não só, vieram trazer ao sector algo que lhe faltava, i.é, Concorrência.

Com efeito um sector que até há bem pouco tempo era dominado sómente pelos operadores públicos, passou a ter um acréscimo de concorrência e de dinamismo nunca vistos. Daí que , mesmo em clima de pessimismo generalizado com os mercados de novas tecnologias a registarem perdas  consecutivas em todo o mundo, os Investimentos em capital de risco , em Portugal, tenham aumentado substancialmente face ao ano de 1999( vidé Indicador).

O “ Engodo do Lucro” gerou assim um aumento de atenção, criatividade , capacidade de análise e maior assunção de riscos que como é óbvio se reflectiu num aumento de actividade por parte das SCR nacionais  logo num maior numero de operações analisadas e concretizadas.

 

 

-         A realização de dezenas de iniciativas ( seminários e conferências , livros publicados, artigos de opinião, Trabalhos realizados pela Imprensa Especializada, trabalhos académicos, entre outras) que contribuiram e muito para a Evangelização do sector de capital de risco , i.é., para a promoção da sua missão e das vantagens e competências específicas face a outros instrumentos de financiamento empresarial. Estas acções contribuíram  para que o Capital de Risco passasse a ser tema de conversa do dia a dia empresarial quando antes era algo que só fazia parte da Teoria possibilitando a criação de um clima de optimismo junto dos empreendedores, nomeadamente os que se encontram ligados às novas tecnologias, levando-os a acreditar que também é possível ,em Portugal, a obtenção de  financiamento via capital de risco.

-         A chegada ao mercado nacional de toda uma panóplia de conselheiros especializados em criação  de empresas como são o caso dos: “caçadores de cabeças”, advogados, consultores de marketing, angariadores de capital de risco, gabinetes de relações públicas, jornalistas especializados, ou seja a presença de um conjunto de especialistas que permitiram  « industrializar » a criação de start-ups, ao fazer beneficiar entre eles de uma rede muito densa de profissionais de alto nível, e o que é mais importante , desde a sua criação.

-         A criação do Novo Mercado- parabéns Dr Alves Monteiro- de empresas de elevado potencial de crescimento o qual permitirá por um lado organizar , num futuro próximo , as nossas Small Caps  dotando-as de adequadas capacidades de financiamento ao seu desenvolvimento e por outro aos operadores de capital de risco possuirem um Mercado no qual poderão alienar, caso assim o entendam, as participações que , em devido tempo, efectuaram , nas citadas smalls caps, e dessa forma obterem a tão desejada liquidez para que possam investir em novos projectos empresariais.

 

Ao nível dos aspectos negativos há a registar:

    • a total falta de visão do poder político para a necessidade de criar um enquadramento fiscal favorável à actividade de Capital de Risco, quer formal quer informal, situação esta tanto mais grave quanto sabemos ter sido aprovada nesse período, uma “pseudo” reforma fiscal. Com efeito a manutenção, por um lado de uma taxa de tributação efectiva das SCR de 35,2%, em sede de IRC, ao contrário do que acontece , por exemplo em Espanha onde as SCR são tributadas em 1%,  e a contínua ausência de incentivos fiscais aos Investidores informais que invistam em PMEs não cotadas , em bolsa, contráriamente ao que acontece em França,p.ex., contribuem para que os empreendedores portugueses continuem a não ter acesso não só ao Capital Dinheiro , mas fundamentalmente ao Capital Conhecimento resultante do  “saber fazer” das redes de contactos internacionais que lhes permitam colocar os seus produtos e serviços mais fácilmente nos mercados globais.

 

 

    • Ausência de iniciativas profissionais que contribuam para a dinamizar o aparecimento de Jovens Empreendedores e consequentemente de mais projectos de investimento que possam beneficiar das condições que actualmente o lado da Oferta ( Incubadoras públicas e privadas, clubes de business angels, corporate ventures, Sociedades de capital de risco e até de um Novo Mercado) possui.

A este nível pergunto mesmo: será que é a existência do Novo Mercado que está errado – como muitos infelizmente apregoam- ou será a incapacidade de criar condições que potenciem o aparecimento do tal espírito empreendedor que alimenta esse Novo Mercado?

Olhando para o que os outros  países fizeram encontramos soluções para diminuirmos o “gap” de novos empreendedores/projectos conforme o demonstra .p.ex., e este é apenas um, o êxito que as Capitais de Risco americanas obtêm pelo facto de sponsorizarem concursos nacionais de planos de negócios.Com efeito alguns dos vencedores fundam as próprias empresas e iniciam novos negócios, tendo como base de arranque os prémios obtidos, com muito êxito e nas quais as SCR acabam por investir.

 

  1. Quais foram as grandes diferenças que se sentiram no sector, do 1º para o 2º semestre de 2000?

 

Em relação ao 1º semestre não temos quaisquer dados disponíveis. O que podemos comparar é em relação ao ano de 1999 e tendo por base as estatísticas publicadas pela Associação  Portuguesa de Capital de Risco conforme aliás é bem explicito no nosso Indicador.

Tendo por base essa relação podemos analisar duas situações:

-         os montantes e operações realizadas mais que duplicaram.

-         Aumento do numero de operadores . De 7 de operadores activos e uma elevada concentração dos investimentos em apenas 1 operador, passou-se para cerca de 16 operadores com a concentração dos investimentos a ser dispersa por diversos operadores com particular destaque para a Change Partners que tendo iniciado a sua actividade em 2000 atinge uma elevada performance quer ao nível dos valores investidos quer no numero de operações efectuadas. 

 

  1. Sentiu-se uma quebra dos investimentos realizados pelos operadores em Portugal? e no exterior?

 

Em Portugal essa quebra não foi verificada, antes pelo contrário, pois assistiu-se a um substancial aumento conforme o demonstram os resultados obtidos e que damos conta no nosso Indicador.

Em relação ao exterior gostaria de salientar que durante o exercício de 2000 se bateram todos os records anteriormente alcançados na Indústria de Capital de Risco com particular destaque para:

·                                 INVESTIMENTO    AUMENTO FACE A 1999

                                ESPANHA                  1.127 Milhões de Euros                56%                           

                                EUA                         127.359         Idem                   164%

                                        EUROPA                    27.000                                      8%

                 

    No entanto todos nós temos a consciência de que os dados de 2000 apresentados não reflectem, verdadeiramente o ocorrido nesse ano, uma vez que o efeito da queda dos valores tecnológicos ocorreu no ultimo trimestre desse ano, com implicações óbvias na diminuição do investimento nesse trimestre e que marcou uma mudança de tendência bastante acentuada.

    A confirmar, aliás , essa tendência, são os números apresentados pela Price , relativos ao 1º trimestre de 2001, nos EUA, em que se investiram 14.500 milhões de dólares contra os 20.400 milhões investidos no ultimo trimestre de 2000 e os 27.800 milhões no 3º trimestre de 2000.

Com efeito a situação não se pode qualificar , nem pouco mais ou menos, catastrófica e as previsões , nos EUA, país que vem marcando a tendência nos investimentos, apontam para que o investimento no sector de CR atinja , em 2001 cerca de 47.000 milhões dólares, pouco se comparado com os 108.000 milhões de dólares de 2000, mas que supõe ainda um aumento de 15% face a 1999. Para muitos analistas , este facto, significa mesmo que o investimento se irá acalmar mas não a reduzir.

    Porém , sou da opinião, de que neste sector de actividade o que é importante é fazer negócios a longo prazo apesar de ser bastante importante estarmos atentos às correcções do mercado.

              

  1. Do total de investimentos realizados no 2º semestre, como é que analisa o interesse dos investidores de CR pela área ligada à Internet?

 

Tal como se pode constatar , no Indicador, os Investimentos realizados, no sector de Internet ( Serviços de Internet, do Comércio Electrónico, das Infra-estruturas , dos Portais e Conteúdos ) registaram durante o 2º semestre , em análise, investimentos na ordem dos 6 milhões de contos , distribuídos por 33 operações , o que , face ao total representa cerca de 13% dos investimentos realizados. Estes valores são relativamente baixos face ao verificado noutros países mas não deixam de ser extremamente interessantes, em Portugal, dado o nosso atraso nas áreas da Internet e deste sector ainda se encontrar associado a um elevado nível de risco a que acresce o facto de os nossos operadores de capital de risco ainda não se encontrarem totalmente sensibilizados para estes mercados nem possuírem um perfil ideal para tal. Só para citar o caso francês , há a referir que a maioria das SCR possuem nos seus quadros, pessoas com qualificações desde as finanças à electrónica, telecomunicações ou biotecnologia.

Esta questão encontra-se também intimamente ligada , à problemática dos Estádios de Desenvolvimento em que os nossos operadores preferencialmente investem e que passam sobretudo pela fase Capital de Desenvolvimento ( Expansão). Ora o que se verifica é que os projectos na área da Internet são sobretudo focalizados em Estádios Seed Capital  ou Start-ups, onde os montantes a investir são baixos e os riscos elevados, mas onde o retorno do investimento pode assumir dimensões incomparáveis a qualquer outro estádio de desenvolvimento.

Daí que , e porque muitos desses projectos têm de facto “pernas para andar” se torne urgente criar uma verdadeira dinâmica nacional em torno dos investidores informais , vulgarmente designados por Business Angels, uma vez que  estes investidores tem muito mais apetência para “aportar” os seus recursos, dinheiro e redes de contactos, a projectos seed capital do que os investidores institucionais.

 

  1. Com a  quebra  nas dot.com acha que se verificou um regresso dos investidores de CR às áreas tradicionais da economia? ou essas áreas nunca deixaram de ser as que maior peso tiveram nas escolhas dos investidores?

 

De facto os Investidores nacionais nunca deixaram de dar primazia aos investimentos nos sectores mais tradicionais, pelas razões atrás focadas, sendo o investimento realizado no sector da Internet ainda bastante baixo face aos nossos congéneres europeus. Assim, quando refere quebra nas dot.com a verdade é que nunca houve uma verdadeira euforia em Portugal até porque o atraso nesta matéria é por demais evidente tendo em linha de conta os valores alcançados noutros países.

No entanto, em função dos resultados verificados, a nível global, temos de reconhecer hoje que o facto de Portugal ter estado atrasado relativamente aos EUA e aos países europeus mais evoluídos, nesta matéria, permitiu que os Operadores de capital de risco nacionais se tivessem colocado a salvo havendo mesmo quem diga: “ Foi uma sorte ter chegado atrasado à festa”.

Mas , óbviamente,  também não puderam beneficiar de alguns ganhos espectaculares que marcaram o sector no decorrer de 1999 e 1º semestre de 2000 nem obtiveram um Capital Conhecimento que eventualmente lhes poderia ser bastante útil para compreender melhor as ultimas tendências tecnológicas que marcarão o próximo ciclo de investimentos das SCR internacionais.

E como reflexo da actuação em contra ciclo das SCR nacionais é o facto de o nosso País se encontrar em ultimo lugar, nas diversas estatísticas que vão sendo publicadas, sendo inclusivamente ultrapassado pela Grécia. País este onde recentemente, abril, foi inaugurado o Novo Mercado de Atenas, com a saída em bolsa de uma empresa de CRM que obteve elevadas cotações independentemente da actual conjuntura internacional tantas vezes referenciada em Portugal para justificar deficiências de organização e de falta de vontade de mudar o status quo instalado.

 

  1. Como vê a evolução do sector do CR no 1º semestre de 2001?

Apesar do ambiente macro-económico negativo e da instabilidade política que se viveu em Portugal , no 1º semestre de 2001, com reflexos acentuados na falta de confiança por parte de consumidores e investidores, estou convencido de que os resultados desta actividade  foram bons mas provávelmente não tão significativos como no 2º semestre de 2000.

Mas para o sabermos o que ocorreu vamos ter de aguardar com grande expectativa a 2ª edição do Indicador Gesventure /Univ.Moderna  a apresentar até final de Setembro.

 

No entanto  as constantes quebras bolsistas, onde Portugal foi líder europeu nas perdas e a não saída no Novo Mercado de nenhuma empresa , eliminando o “efeito demonstração” que pudesse funcionar como estímulo a outras empresas, assim como a não mudança do enquadramento fiscal que impulsione o aparecimento de novos operadores nacionais , quer formais quer informais, e a entrada no mercado de operadores internacionais, fazem antever maus tempos para o Capital de Risco Nacional que sinceramente não gostaria de ver acontecer depois de tanto esforço realizado na promoção das vantagens associadas a este importante instrumento de financiamento.

Pode ser que o novo Ministro das Finanças e a sua equipa ajudem a mudar o citado enquadramento e evitar que as poucas SCR existentes não se venham a transformar em Sociedades de Investimento e/ou a transferir a sua sede para Espanha ( onde para além de um adequado enquadramento fiscal existente o Governo se prepara para colocar em andamento um programa de fomento de capital de risco para apoio  às novas empresas), que os poucos Investidores Informais existentes deixem de continuar a estar sensibilizados para este tipo de investimento , que os operadores internacionais continuem  a estar ausentes do nosso mercado e que as duas Sociedades de Desenvolvimento Empresarial- tão importantes para o apoio a projectos seed capital no interior do país mas tão mal compreendidas pelo poder político e até associativo, nomeadamente o empresarial- existentes se transformem também elas em Sociedades ao serviço dos grandes grupos financeiros e das sinergias que os mesmos possam gerar.

Por ultimo gostava de realçar que ainda que tenha diminuído o “apetite” dos investidores pela Nova Economia tal não significa que não haja dinheiro no mercado procurando boas oportunidades .Neste momento existem , a nível europeu, cerca de 13.000 milhões de Euros  disponíveis a serem investidos em novas empresas.

Porém os Investidores , com a actual crise dos mercados tecnológicos a condicionar as suas opções, não encontram fácilmente  projectos do seu agrado para financiar.

Assim estou convencido de que os Empreendedores portugueses que possuam projectos empresariais que tenham uma equipe de gestão competente ( não só técnica mas fundamentalmente com Credibilidade ) , um mercado ambicioso, com uma vantagem distintiva relativamente à concorrência que possibilite a criação de barreiras à entrada e que seja capaz de gerar lucros não terá qualquer problema em motivar o interesse dos Capitalistas de Risco.

Até porque se há algo que “doi” a um investidor de capital de risco é o facto de ter dinheiro e não encontrar projectos de qualidade para investir.

E como  neste momento sinto que  os investidores estão a ficar com esse estado de Espírito então recomendo aos Empreendedores portugueses que está na altura de mostrarem que tem  Valor e que os seus  projectos têm atributos para serem financiados por Capital de Risco.

Vamos Aproveitar!!!!!!