1) Quais são os objectivos do 2º VCIT- Congresso Internacional sobre o capital de risco? Preconizamos que esta iniciativa, à semelhança do 1º Congresso realizado, irá, seguramente, traduzir-se num verdadeiro pólo aglutinador das últimas tendências globais verificadas no sector de capital de risco, sobretudo, ao nível dos mercados de capitais, investimentos e novas tecnologias, sempre numa óptica fortemente orientada para a Evangelização do conceito, promoção do espírito empreendedor e disseminação das melhores práticas de gestão utilizadas pelas empresas que fazem a diferença no actual mundo dos negócios. Após a desaceleração económica, o rebentamento da bolha dot.com , a caída generalizada dos mercados em que se negoceiam títulos de empresas tecnológicas e os problemas derivados do 11 de Setembro entendemos ser o momento certo para reflectir não só sobre as ameaças resultantes deste ambiente de incerteza mas também sobre as oportunidades que a generalização da utilização das tecnologias de informação, o aumento da qualidade da pesquisa técnica e científica ( com particular destaque para as áreas da Biotecnologia e da Saúde) e a emergência de uma geração de quadros mais formados e informados poderão proporcionar quer a empreendedores quer a investidores. Em resumo fazer do VCIT- para mais informações consultar www.gesventure.pt - uma “montra” global e profissional do sector de capital de risco, onde os empreendedores, investidores, consultores e profissionais da Imprensa especializada, encontrem um ambiente favorável à troca de ideias sobre tudo o que interessa à iniciativa empresarial, factor de competitividade e de desenvolvimento do nosso país é o objectivo de mais esta iniciativa levada a efeito pela Gesventure e pela Universidade Moderna. 2) Considera que o capital de risco tem evoluído de forma positiva em Portugal? Comparativamente à fase inicial do Capital de Risco em Portugal da segunda metade da década de 80, este sector que se caracteriza por uma elevada complexidade ao contrário do que muitas vezes se pretende dar a entender, tem sofrido, sobretudo, nestes últimos 2 anos, algumas mudanças de vulto. Com efeito passou-se de um período em que o sector estava completamente moribundo( por exemplo em 1999 mais de 90% do investimento realizado estava concentrado num só operador ) para uma época em que os empreendedores portugueses passaram a ter ao seu dispor uma oferta adequada, apesar de bastante insuficiente ao nível dos projectos de Seed Capital em virtude do número reduzido de investidores informais (Business Angels), às suas necessidades de desenvolvimento empresarial quer estas se refiram a um estágio de incubação quer de dispersão de capital pelo publico em geral. O aparecimento das primeiras incubadoras privadas , veja-se a mais recente iniciativa da Anje em Aveiro, e a consolidação das publicas ( Tagus Park com particular relevância) , o nascer dos primeiros Clubes de Business Angels ( vidé por exemplo: www.businessangelsclub.com ), a presença da primeira sociedade de capital de risco com 100% de capitais privados , uma nova dinâmica por parte dos Grandes Grupos Empresariais portugueses ( com a Amorim Desenvolvimento em grande destaque) através das suas Corporate Ventures, a regulamentação e lançamento do Novo Mercado, apoiadas por um conjunto de consultores especializados veio trazer à Indústria de Capital de Risco nacional uma dinâmica que teve o seu ponto alto no 2º semestre de 2000 quando de acordo com o Indicador Gesventure/U.Moderna foram batidos todos os recordes de Investimento ( mais de 190 milhões de Euros investidos) até então realizados. Apesar de terem sido dois anos de alterações marcadamente positivas, que, contudo, não diminuíram o fosso que ainda existe com outros países da União Europeia, por exemplo França e Reino Unido, onde este sector desempenha um papel decisivo no apoio à inovação e ao aparecimento de startups geradoras de riqueza convém salientar que as constantes quebras bolsistas, onde Portugal foi líder europeu nas perdas e a não saída no Novo Mercado de nenhuma empresa , eliminando o efeito demonstração que pudesse funcionar como estímulo a outras empresas, assim como a não mudança do enquadramento fiscal que impulsione o aparecimento de novos operadores nacionais , quer formais quer informais, e a entrada no mercado de operadores internacionais, bem como a contínua ausência de Acções Ancora( Concursos de Planos de Negócios, Dinamização regional de clubes de B.A., foruns especializados,etc..) fazem antever maus tempos para o Capital de Risco Nacional que sinceramente não gostaria de ver acontecer depois de tanto esforço realizado na promoção das vantagens associadas a este importante instrumento de financiamento. Pode ser que os novos Ministros das Finanças e da Economia e as suas equipas ajudem a mudar o citado enquadramento e evitar que as poucas SCR existentes não se venham a transformar em Sociedades de Investimento e/ou a transferir a sua sede para Espanha ( onde para além de um adequado enquadramento fiscal existente, desde 1999, o Governo publicou no recente mês de Março uma portaria que modificou o regime jurídico das SCR, indo de encontro aos interesses subscritos pela respectiva Associação, e se prepara para colocar em andamento um programa de fomento de capital de risco para apoio às novas empresas), que os poucos Investidores Informais existentes deixem de continuar a estar sensibilizados para este tipo de investimento , que os operadores internacionais continuem a estar ausentes do nosso mercado e que as Sociedades de Desenvolvimento Empresarial- tão importantes para o apoio a projectos seed capital no interior do país mas tão mal compreendidas pelo poder político e até associativo, nomeadamente o empresarial- existentes se transformem também elas em meras sociedades de prestação de serviços . 3) O enquadramento fiscal do capital de risco corresponde às expectativas? Infelizmente a actividade de capital de risco nacional continua , e afirmo isto pela enésima vez ao longo dos últimos seis anos, à espera de um enquadramento fiscal adequado às suas necessidades. Como é possível manter uma taxa de tributação, em sede de IRC, de 35,2% sobre as mais valias obtidas pelas SCR nacionais face a uma taxa de 1% em Espanha? Ou como é possível continuar a não ter um regime fiscal favorável aos investimentos em pequenas e médias empresas por parte dos Business Angels ao contrário do que acontece, por exemplo, em Espanha, França e Reino Unido ? Naturalmente que não admira por isso que Portugal continue a ser o único país da União Europeia que não possui qualquer valor investido pelas SCR internacionais na indústria de capital de risco nacional, vidé quadro 1, e por outro lado continue a ver a sua vizinha Espanha a ter cada vez mais Sociedades a operar nesse mercado conforme se poderá visualizar pelo quadro 2. Ora se por um lado existe a consciencialização de que as empresas de base tecnológica raramente se poderão contentar com os seus mercados de origem para viabilizarem os seus projectos com um volume de negócios significativo por outro sabe-se que a entrada noutros mercados geográficos sem uma boa estrutura financeira e de conhecimentos operacionais e de Marketing pode contribuir para a inviabilização de qualquer iniciativa empresarial nomeadamente as lideradas por jovens empreendedores. Nesse sentido poder partilhar com um investidor estrangeiro este tipo de preocupações e beneficiar da sua extensa rede de contactos é algo que interessa não só aos empreendedores como também às próprias SCR nacionais uma vez que assim podem não só partilhar o risco financeiro como o citado risco geográfico. Mas como o poderão fazer se esses investidores estrangeiros não operam activamente no mercado nacional? Face ao exposto e dado o interesse que a promoção empresarial têm em qualquer país é, no mínimo estranho que em Portugal se continuem a adiar a tomada de medidas que incentivem a participação quer dos investidores internacionais quer dos investidores nacionais na dinamização da indústria nacional de capital de risco obstruindo assim o financiamento das Pme inovadoras , nomeadamente as de base tecnológica, e consequentemente a criação de riqueza e o aumento do bem estar da população em geral. 4) O maior potencial de crescimento do capital de risco está na acção das instituições financeiras privadas ou nas sociedades que foram criadas com capitais públicos? Está claramente nas entidades privadas no entanto as entidades públicas podem e devem desempenhar um papel muito importante em acções que completem a oferta do sector privado. Por exemplo o sector de capital de risco privado ,em termos gerais, tem tendência a concentrar-se tendo em vista o aproveitamento, nomeadamente, das vantagens inerentes a economias de escala. Estes movimentos de concentração provocam não só uma junção de capitais mas fundamentalmente à redução de efectivos os quais representam uma parcela bastante significativa dos seus custos de estrutura . Só que estes profissionais, proporcionalmente menos numerosos face ao aumento dos capitais sob sua gestão, não podem por sua vez aumentar o numero dos seus investimentos sob pena de não os poderem acompanhar. Como consequência tem-se vindo a verificar uma aceleração do valor médio das participações efectuadas pelas SCR privadas o que faz com que o numero de empreendedores que possam ser apoiados por este instrumento de financiamento seja cada vez menor pois o nível de exigência e de selectividade é cada vez maior. Naturalmente que tendo em linha de conta que estudos realizados pelo Observatório Europeu das PME nos mostram que 4% das empresas criadas hoje representarão 50% do emprego de amanhã, então o Estado não pode deixar de assumir as suas responsabilidades na criação de condições que permitam às PME nacionais não serem prejudicadas pelo citado elitismo e selectividade. Assim e tal como acontece com as Small Business Investment Corp. americanas, também em Portugal e na União Europeia, a intervenção pública deve ser legitimada pela necessidade de eliminar algumas lacunas que a iniciativa privada em determinados segmentos de mercado não está a conseguir ultrapassar. Por outro lado as sociedades de capital de risco públicas podem fomentar o aparecimento de projectos que, embora não tenham grandes atractivos económicos, podem ser interessantes do ponto de vista social, como por exemplo, projectos na área do ambiente, da energia ou dos transportes, entre outros. No entanto, as suas decisões estão muito limitadas e não poderão desfrutar do mesmo grau de liberdade que os gestores privados têm pelo que o seu êxito dependerá mais do apoio que permitem dar à iniciativa privada do que ao seu envolvimento na gestão operacional. Não menosprezando o valor dos gestores das sociedades de capital de risco públicas, penso que as entidades privadas são o verdadeiro motor da economia, pois estimulam o aparecimento de projectos verdadeiramente inovadores e arriscados. Os seus critérios de selecção de projectos baseiam-se unicamente no seu potencial de crescimento e na sua capacidade de gerar rendimentos no futuro para os investidores. Enquanto que o capital de risco público existirá sempre e o seu nível de aplicação dependerá sempre de políticas governamentais, o capital de risco privado dependerá da conjuntura económica e dos mercados mobiliários e terá os seus períodos de recessão e os seus períodos de euforia. No entanto nada será possível , quer o investimento seja publico ou privado, sem uma profunda mutação das mentalidades visando a preferência pelo risco à segurança. Esta atitude, que explica em grande parte o dinamismo de um povo, terá de ser encorajada desde os bancos da escola por forma a reduzir a atracção de uma carreira publica em detrimento do espírito empreendedor. Por um lado só uma grande libertação de energia e de empreendedores poderá ajudar a eliminar o déficit português face aos seus congéneres europeus e por outro o estado deverá desenvolver iniciativas que incentivem e apoiem os actores privados mais do que intervir directamente.
5) Considera que o capital de risco interessa mais às empresas já constituídas como forma de alavancar o seu crescimento, ou aos novos projectos empresariais? Apesar do verdadeiro espírito do capital de risco se encontrar muito ligado à Inovação e ao lançamento de empresas de base tecnológica ele, no entanto, encontra o seu espaço em todas as empresas que possuem elevado potencial de crescimento. Em primeiro lugar nas empresas de forte crescimento porque uma taxa de crescimento elevada possui necessidades de financiamento importantes que o autofinanciamento ou as Instituições de crédito tradicionais não se encontram habilitadas a satisfazer. Em seguida porque um crescimento rápido provoca mudanças significativas, no seio da empresa e do seu meio ambiente, que são muitas vezes portadoras de factores de risco e de eventuais prejuízos. E por ultimo porque em caso de sucesso o crescimento corresponde a uma valorização da empresa que permite ao investidor realizar uma mais valia interessante sobre a sua participação. O capital de risco desempenha assim um papel muito importante tanto para umas como para outras. Para as novas empresas que ainda não têm um produto ou que, já o tendo, ainda não estejam implantadas no mercado, um investidor quer uma parte de capital em troca do seu investimento, experiência e contactos, pois essa é a única forma de poder ter a possibilidade de um elevado rendimento sem sufocar a empresa com altas taxas de juro que uma instituição financeira cobraria por um projecto mais arriscado. É claro que o capital de risco também interessa às empresas já constituídas, especialmente àquelas que não têm dimensão suficiente para dispersar o capital em bolsa. O aparecimento dos Novos Mercados em toda a Europa, seguindo a mesma ideia do NASDAQ, sem critérios muito rígidos de admissão, veio permitir às empresas uma forma de financiamento alternativa, mas, mesmo assim, muitas não estão em condições de ser admitidas ou simplesmente não o querem. Por outro lado, mesmo nas empresas já constituídas, existem muitas lacunas ao nível das capacidades de gestão necessárias para gerir em ambiente de cariz global. É por isso que nas segundas ou terceiras rondas de financiamento via capital de risco, procura-se um parceiro que traga essas competências para a empresa. Além disso, interessa referir que quanto mais cedo o financiamento de capital de risco entra na empresa, maior percentagem de capital o investidor irá exigir devido ao maior risco. Uma empresa que ainda não está presente no mercado ou que ainda não tenha um produto desenvolvido tem menos hipóteses de sobreviver que uma empresa que já o tenha feito. Naturalmente que os investidores têm consciência desse facto e como tal é normal que, em conjunturas de crise dos mercados, se refugiem em projectos que já se encontram em fase de expansão apesar de com essa atitude diminuírem as suas taxas de rentabilidade pois ao entrarem numa fase de menor risco é lógico que também tenham menores proveitos. Nesta óptica o capital de risco torna-se mais vantajoso para as empresas já em funcionamento, mas tal não é suficiente para dizer que o capital de risco é mais interessante para estas empresas, porque as empresas têm sempre a opção de ser financiadas por capital de risco através de um processo faseado, dependendo dos seus estádios de desenvolvimento. 6) Passada a euforia das dotcom o capital de risco está a reorientar-se para os sectores tradicionais ou vai continuar a privilegiar os projectos ligados às áreas tecnológicas? É preciso notar que durante a euforia das dotcom, o Capital, fundamentalmente nos mercados mais evoluídos, dirigiu-se para as empresas que considerava interessantes, não só no capital de risco, mas também nos mercados bolsistas. Não foi um defeito do capital de risco; foi um problema de mentalidade: como todos estavam a ganhar dinheiro com as dotcoms, mais e mais dinheiro foi investido nessas empresas, isto tudo com muita irresponsabilidade pelo meio, pois o valor real das empresas deixou de interessar. Relativamente aos sectores tradicionais, existem poucos projectos que são verdadeiramente interessantes para o capital de risco, pois não garantem rentabilidades satisfatórias para os investidores. Recordo que, para um projecto ser interessante para um investidor de capital de risco, o mesmo deverá, segundo alguns investidores, proporcionar uma rentabilidade anual de 30% pelo menos, e isso não é possível em todos os sectores. A comprovar esta minha opinião veja-se que apesar da recessão dos mercados os principais investimentos realizados pelo capital de risco, na área de Silicon Valley- se esta aposta na biotecnologia obter resultados será a quarta vez em 50 anos que esta zona do EUA se coloca na crista da onda da inovação, após tê-lo feito nos semi-condutores, nos computadores pessoais e mais recentemente na Internet- no primeiro trimestre deste ano estão a ser efectuados na área da Biotecnologia . Por sua vez na Europa as principais empresas de capital de risco , Abingwort, Advent International, Apax Partners, Atlas Ventures e Merlin Biosciences possuem fundos para investir na área da Biotecnologia no valor de 28.000 milhões de Euros e a Comissão Europeia valoriza actualmente o sector biotecnológico na Europa em cerca de 600.000 milhões de Euros. E tudo porque a biotecnologia representa actualmente uma parte bastante significativa no processo de descobrimento de novos remédios que posteriormente serão produzidos e comercializados pela forte Indústria farmacêutica. Como consequência uma SCR que faça a aposta certa poderá ver a sua empresa participada sair em bolsa e obter taxas de rentabilidade elevadíssimas. Penso no entanto que, após o «annus horribilis» de 2001, no curto prazo, os investidores ainda irão estar bastante cautelosos relativamente aos investimentos nas áreas tecnológicas, e por isso terão tendência a investir em projectos menos arriscados como sejam os dos sectores tradicionais mesmo que isso signifique menores taxas de retorno . Porém nos próximos anos os investidores já se terão esquecido de tudo isto pois têm a memória curta, e voltarão a investir em força nas empresas de base tecnológica e, possivelmente, em algumas empresas que identifiquem adequados modelos de negócio na plataforma de comunicação Internet. Mas o que ficará para sempre é a consciência de que os modelos tradicionais de avaliação de empresas são para ser sempre utilizados, seja quais forem as circunstâncias. 7) Qual será o factor mais importante para o crescimento do capital de risco? O aumento dos capitais disponíveis ou o aumento do número de projectos candidatos ao capital de risco? Vejamos o caso de Portugal. Não é por existirem muitos capitais disponíveis que se pode classificar a indústria de capital de risco como um sucesso. As sociedades de capital de risco estão efectivamente com bastante dinheiro disponível para investir, mas não têm tido uma particular apetência pelos projectos que lhes têm sido apresentados ou porque não satisfazem os seus critérios de avaliação ou simplesmente porque os projectos não se enquadram nos seus objectivos. No entanto, em vários estudos realizados a nível internacional, demonstrou-se que o aumento dos capitais disponíveis é um factor muito importante para o crescimento do capital de risco, sendo possivelmente mais importante que o aumento do número de projectos. Mas não se deve considerar um ou outro factor mais importante, dado que o que interessa para o crescimento do capital de risco é a existência de um Ecossistema favorável, de que Silicon Valley representa o expoente máximo, e isso inclui não só a procura e oferta de fundos, mas também um conjunto de entidades que suportam a actividade de capital de risco, além de um enquadramento legal e fiscal favorável e a existência de possibilidades viáveis de saída dos investidores. Quadro 1
Quadro 2
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