ENTREVISTA À REVISTA BIT
1ª QUESTÃO: No prefácio do seu livro Capital de Risco o jornalista do Expresso, Nascimento Rodrigues, apelida-o de pioneiro nesta área de negócio. Concorda?
![]() |
RESPOSTA: Modéstia à parte, considero que a minha intervenção (através da publicação de dezenas de artigos, da edição de 2 livros, de dezenas de conferências ao longo do país, da criação da primeira Venture Catalyst e do primeiro Clube de Business Angels português), na Evangelização de uma nova cultura de capital de risco em Portugal foi pioneira sendo algo de que muito me orgulho, pois os empreendedores portugueses brevemente poderão encontrar também no seu país, um Ecossistema favorável à dinamização das suas ideias e projectos. |
No entanto, esta minha cruzada, a favor do capital de risco, não teria sido possível caso não tivesse tido o apoio de: Dr. Horácio Piriquito (Valor, Semanário Económico, Fortunas e Negócios); Dr. João Luís de Sousa (Vida Económica) e Eng.º. José Mattoso (Editora Bertrand) uma vez que foram eles que, desde a primeira hora, acreditaram nas ideias que lhes apresentei e as tornaram possível de ler por todos os interessados nestas matérias.
Gostava igualmente de referir o papel importante do empreendedor Dr. Diogo Vasconcelos na dinamização do capital de risco em Portugal, nomeadamente através da sua revista Ideias e Negócios - e a sua cultura do Despeça-se Já - que contribuiu, igualmente, para levar ao conhecimento do público em geral e dos empreendedores em particular as características desta forma de financiamento.
2ª QUESTÃO: O que o levou a apostar no empreendedorismo?
RESPOSTA: Basicamente foram três os motivos que me levaram a fazer esta aposta, a saber:
Em primeiro lugar o facto de eu próprio ter decidido optar pela carreira empreendedora (constituí há catorze anos atrás a empresa Gesbanha - Gestão e Contabilidade, Lda. - em detrimento de uma carreira por conta de outrém, numa instituição bancária), permitiu-me constatar que a experiência que fui acumulando no desenvolvimento da minha actividade, quer no apoio a empresas Multinacionais quer a PMEs portuguesas podia e devia ser transmitida a uma nova geração de jovens empreendedores, muito mais informada e formada que a generalidade da população portuguesa, contribuindo para que possam adaptar-se e obterem a flexibilidade necessária para aproveitar as mudanças e as novas regras de jogo de uma economia globalizada e cada vez mais competitiva.
De seguida, o facto de ser Professor Universitário e um devorador de informação tornou possível, há algum tempo atrás, antever que estávamos à beira de uma profunda revolução ao nível da transformação de uma economia assente num modelo organizacional vertical (o tempo emque a Ford tinha terras onde pastavam as ovelhas, de onde se tirava a lã para incorporar nos bancos dos seus carros, representava bem esse tempo) para um modelo horizontal constituído por um conjunto de fornecedores que compete em cada uma das áreas da cadeia de valor da indústria. Esta alteração permitirá grandes oportunidades a um grande número de PMEs ambiciosas que, no entanto, necessitam de ter comparativamente às suas antepassadas, um maior profissionalismo na gestão, o que pressupõe um bom nicho de mercado para as empresas de serviços, nomeadamente para as que actuam na minha área de actividade, isto é, no âmbito da informação para apoio à tomada de decisão.
Em terceiro lugar, no limiar do século XXI, uma atitude aberta a capacidade de tomar iniciativas e recurso à criatividade são alguns dos valores que urge transmitir aos nossos jovens tendo em vista o seu desenvolvimento profissional futuro.
Até porque se este tipo de atitude habitualmente designado por Espírito Empreendedor, é fácil de compreender e encontrar num país como os EUA, onde se estimula o risco, se premeiam os vencedores e não se afastam os derrotados, já o mesmo não acontece em Portugal. Afigura-se assim necessário que aqueles, que tal com eu têm vivido a magnífica experiência de mergulhar intensamente na fascinante, difícil, exaustiva, mas também, por vezes, compensadora aventura de criar e desenvolver uma nova empresa, se interessem e participem na criação de uma nova geração de empreendedores capaz de desenvolver um tecido empresarial mais estável a longo prazo, com uma maior diversificação de actividades e que permita, especialmente, um crescimento económico sustentado da nossa economia.
3ª QUESTÃO: Foi também mentor de um clube de business angels. Qual o seu (do clube) objectivo principal?
RESPOSTA: Convém antes de mais referir que o facto de ter constituído em Junho de 1999 uma empresa - Gesventure - Desenvolvimento de Novas Tecnologias, Lda., em parceria com o principal angariador de capital de risco em França, para projectos startups - Dr. Christophe Chausson - permitiu-me ter acesso ao know-how desta interessante actividade de Venture Catalyst e consequentemente introduzir em Portugal alguns dos procedimentos seguidos pela Chausson Finance.
Naturalmente que a associação desses conhecimentos práticos com a credibilidade que possuía, junto de um conjunto de empresários e gestores, aliados às provas dadas na criação e desenvolvimento empresarial, permitiu-me constituir o Clube de Business Angels Gesventure que tem como objectivo principal ser um ponto de encontro entre empreendedores que procuram capital e os investidores que procuram boas oportunidades de investimento.
Permitindo que, por um lado, os empreendedores contactem de uma única vez com um conjunto de investidores privados, idóneos e de difícil acesso que transmitem, para além do capital, a sua experiência, dentro de determinado sector de actividade. Todavia este tipo de investidores podem escolher uma, de entre diversas oportunidades de investimento, antes dos investidores institucionais e participar em empresas que possuam necessidades financeiras limitadas e com valorizações que se encontram ajustadas aos seus objectivos actuais.
4ª QUESTÃO: Tudo começou com a Internet, mas depois criaram as sessões privadas? Qual a diferença? E como é que funcionam essas sessões?
RESPOSTA: Tendo por base a experiência (quer em França quer em Espanha através da Alta New Ventures) do nosso Partner decidimos que o clube Business Angels Gesventure iniciasse a sua actividade através da disponibilização do nosso web site para que os empreendedores e os investidores pudessem divulgar as suas necessidades e ofertas de capital, respectivamente. A divulgação da necessidade de capital por parte do empreendedor, é efectuada no web Site (www.businessangelsclub.com) após o preenchimento de um simples formulário no qual se deve mencionar os seguintes elementos: tipo de actividade, empresa a constituir ou já existente, objectivo da procura de capital, existência ou não de Business Plan e qual a pessoa a contactar.
No que diz respeito às ofertas de capital, estas deverão responder às seguintes questões: sectores de actividade e regiões preferenciais, capital disponível, disponibilidade de tempo e funções e assim com o contacto do investidor.
Paralelamente à divulgação destas necessidades (de capital ou de investimento) na Web, por iniciativa dos investidores ou empreendedores, a equipa de gestores da Gesventure desenvolve um conjunto de iniciativas que lhe permitem identificar um conjunto de empreendedores que possuem projectos de criação ou desenvolvimento, os quais após terem sido seleccionados, pelo Director-Geral da Gesventure, serão submetidos à apreciação dos investidores num ambiente privado e preparado especialmente para o efeito.
Naturalmente que a principal diferença entre estas sessões de divulgação, assenta na existência de um trabalho de campo bastante acentuado, por parte da equipa Gesventure, na selecção dos projectos que irão ser apresentados aos Business Angels quer ao nível da equipa de gestão quer ao nível do próprio projecto, facto este que não ocorre, com base, na simples apresentação dos anúncios na Web.
No que diz respeito à metodologia utilizada nas sessões privadas podemos informar que os empreendedores apresentam durante trinta minutos um conjunto de transparências que resumem a força do seu projecto, período após o qual poderão ser confrontados com uma série de questões por parte dos investidores.
Após a sessão propriamente dita, e caso o Business Plan apresentado faça sonhar o investidor, proporcionando-lhe ao mesmo tempo segurança e ambição, iniciar-se-ão uma série de reuniões que procurarão a melhor valorização, tendo em conta o valor acrescentado que o investidor possa trazer, bem como a montagem das operações de acordo com as características específicas de cada negócio.
5ª QUESTÃO: Quando surgem as ideias separam o trigo do joio. Qual é o método que seguem. Criatividade em primeiro lugar ou certeza de que poderão ser negócios rentáveis?
RESPOSTA: Antes de mais convém relembrar que no financiamento via capital de risco o investidor assume por completo o risco de negócio - apesar de em Portugal não ter sido habitual ao nível das Sociedades de Capital de Risco este tipo de atitude penso que num futuro próximo tal facto virá a ser uma realidade - o que pressupõe que o investidor se reuna da máxima informação possível sobre o negócio alvo do seu investimento.
Como é que isso é conseguido?
Através da elaboração de um Plano de Negócio completo donde constem todos os dados referentes ao conceito e viabilidade do negócio nomeadamente os que assentam na metodologia dos quatro Ms ou seja:
MAGIA: A oportunidade detectada pelo empreendedor baseia-se não apenas em fumos ou espelhos mas sim numa verdadeira solução a um problema ou necessidade que se encontra por satisfazer.
MANAGEMENT: os Directores executivos e o empreendedor têm de se encontrar apaixonados, preparados e motivados para levarem a bom porto a concretização do investimento que quer eles quer os investidores irão realizar.
MERCADO: o Mercado alvo a que se destina a solução/necessidade detectada terá de ser grande, ou com potencial de crescimento devendo o Plano de Negócios prever a obtenção de uma quota de mercado significativa.
MONEY: A estratégia financeira adoptada terá de basear-se em premissas sólidas e revelando preços correctos que permitam antever a existência de um retorno significativo do investimento.
Assim, a consistência e o rigor do plano de desenvolvimento do negócio, bem como a clareza com que nos são expostos os respectivos objectivos aliado à experiência que possuímos - e aqui importa salientar o valor acrescentado que nos é transmitido pelo nosso partner Christophe Chausson que em França se encontra a receber um Business Plan por hora permite-nos pronunciarmo-nos sobre as competências dos empreendedores e da viabilidade da ideia. Caso a nossa opinião seja positiva então submeteremos esse Plano de Negócios à apreciação dos investidores mais indicados ao financiamento do respectivo projecto.
6ª QUESTÃO: Em que negócios apostam mais? Novas tecnologias?
![]() |
RESPOSTA: A nossa especialização encontra-se focalizada em projectos startups que tenham como suporte a Internet. A razão é que estas startups se encontram na linha da frente das alterações fundamentais (e portanto das oportunidades) que se irão registar na passagem da Economia tradicional para a Nova Economia. |
De facto o número de utilizadores da web está a crescer rapidamente e aumentará dos 41 milhões de utilizadores registados em 1998 para 136 milhões, na Europa, em 2002. Por sua vez, segundo estudos realizados, estima-se que as vendas e-commerce aumentarão dos 6 mil milhões de Euros em 1998 para os 242 mil milhões em 2002.
Estas perspectivas de crescimento potenciam o aparecimento de novas startups no sector da Internet e das Telecomunicações o que faz com que os investidores se concentrem fundamentalmente nestes sectores de actividade para realizarem os seus investimentos.
No entanto estas palavras não significam que não possam existir boas ideias noutros domínios nomeadamente no sector do Turismo onde Portugal tem condições ímpares para fazer a diferença, desde que os projectos a desenvolver possuam boa dose de criatividade e inovação.
7ª QUESTÃO: Que tipo de empresas é que os investidores procuram?
RESPOSTA: Neste momento os investidores com que tenho contactado têm demonstrado, na generalidade, grande apetência por tudo o que diga respeito à Internet e Telecomunicações conforme referi na questão anterior.
Assim as ideias baseadas em negócios Business to Business, tecnologias Wap e aumento da amplitude de Banda encontram-se no top da preferência dos investidores, enquanto que os sites generalistas e os negócios e-commerce Business to Consumer se encontram a perder importância.
Convém, no entanto, referir que os investidores de capital de risco pretendem, qualquer que seja o negócio, investir em empresas que tenham empreendedores de elevada qualidade a geri-las e, com uma visão de crescimento de pelo menos 20% anuais pois só assim poderão obter rendimentos elevados que justifiquem o risco assumido.
8ª QUESTÃO: Os projectos podem ser capital semente ou têm de ser startups?
RESPOSTA: Importa relembrar antes de responder à questão propriamente dita, que por capital semente é comum entender-se os projectos que se encontram numa fase de comprovação da viabilidade do conceito do negócio, isto é, ao nível de desenvolvimento do protótipo, da validação de uma teoria ou de pesquisa de mercado. Por sua vez por startups entendem-se os projectos que já viram comprovada a sua viabilidade em termos do conceito do negócio através de um protótipo, estudos económicos e de mercado mas que necessitam de recursos financeiros para iniciar o negócio propriamente dito.
Do exposto podemos retirar que os investidores informais - Business Angels - se encontram mais preparados e interessados em fazerem investimentos em projectos Capital semente quer porque estes necessitam de montantes mais reduzidos quer porque a sua carteira de contactos e de experiência contribuirão não só para a selecção do melhor projecto, mas fundamentalmente para aumentar a sua qualidade através da redução de riscos que se encontram associados à propriedade industrial, concorrência, evolução dos mercados e a situações de conflito ou pré-conflito, por exemplo, entre os membros da gestão ou entre estes e os fornecedores.
Por sua vez as Sociedades de Capital de Risco têm vindo a preferir investir em negócios maiores e já estabelecidos que libertam um determinado cash-flow que proporciona à equipa de gestão, da SCR, rendimentos num prazo e com um risco nada comparável aos efectuados nos projectos seed capital ou startup.
No entanto este cenário encontra-se, a meu ver, em mudança uma vez que as SCR portuguesas estão a analisar e a concretizar operações, em projectos startups, na área das tecnologias de Informação conforme o comprova a participação financeira da PME Capital na Ciberguia fazendo pressupor que durante o corrente ano se verifiquem novos apports de capital a projectos startups nomeadamente através dos Fundos de Capital de Risco que essas sociedades possuem.
9ª QUESTÃO: Acha que os investidores portugueses estão a aderir ao conceito? Como reagiram à criação deste clube? E o governo? Existe regulamentação que possibilite a privados apostarem nesta profissão de risco?
RESPOSTA: Apesar de Portugal ainda se encontrar na fase de Evangelização do conceito, ou seja, de explicação e de sensibilização, eu sou de opinião que os investidores portugueses se encontram bastante receptivos à participação no financiamento dos projectos seed capital e startups conforme o demonstra alguns dos exemplos que têm vindo a ser referidos na imprensa especializada.
Nós próprios, no Clube Business Angels Gesventure, temos dois investidores que nos contactaram, após terem lido na imprensa notícias sobre a iniciativa que estávamos a desenvolver, sendo hoje inclusivamente dos membros mais activos do nosso clube.
No que diz respeito aos restantes membros do nosso clube (constituído por 12 pessoas) eles foram muito receptivos aos convites que lhes dirigi e têm participado regularmente, com bastante interesse a assiduidade , nas sessões que temos realizado.
No entanto, para expandir o mercado de investimento informal é necessário criar mecanismos que ajudem a eliminar os elevados custos de pesquisa incorridos por investidores na procura de oportunidades de investimento e por empreendedores na procura de investidores privados.
A melhor forma de o fazer seria através da dinamização de redes de Business Angels de carácter regional, as quais permitiriam não só a existência de um eficaz canal de comunicação entre os Business Angels e os empreendedores, mas também a mobilização do que, de outra forma, seria uma fonte fragmentada e invisível de capital de risco e torná-la acessível aos pequenos negócios.
No que diz respeito a incentivos por parte do Governo aos investidores privados eles, incompreensivelmente, não existem, ao contrário de outros países como a França por exemplo, pelo que somos de opinião que o governo terá urgentemente de desenvolver as seguinte medidas:
· Estabelecer um tratamento fiscal favorável, aos investidores privados, quer na participação financeira a empresas não cotadas quer na alienação das participações efectuadas desde que, neste caso, as mais valias obtidas sejam reinvestidas;
· Apoiar a criação de acções de sensibilização e evangelização contínuas que visem aumentar a consciência e o conhecimento do capital de risco informal, na comunidade empresarial e académica, nomeadamente através dos media, associações empresariais e universidades.
Estou convicto de que o Governo não poderá continuar a adiar a implementação urgente destas medidas pois a falta de competitividade face a outros países europeus está a revelar-se altamente penalizadora para o rejuvenescimento do tecido empresarial português nomeadamente ao nível dos sectores das tecnologias de informação e comunicação.